EMBOCADURAS
04/07/2011 14:15Por que, como, qual e quando.
Já foi dito que as embocaduras seriam a "chave" para cada cavalo.
Isso é mesmo verdade? E se não for, como descobrir a embocadura certa para
cada caso e como aciona-la? Dúvidas quanto ao uso das embocaduras -
bridões e freios em seus diversos modelos - estão entre os problemas mais
comuns encontrados por todos os cavaleiros, de iniciantes a avançados.
Quantas vezes já ouvimos que remédio para um cavalo desobediente está no
uso de um freio mais "forte"?
E quem de nós sabe explicar com precisão os motivos para o uso de um
modelo de embocadura em determinado cavalo?
E a expectativa de algumas pessoas,que buscam num "bridão diferente" uma
solução mágica para um cavalo considerado problemático.
Estas perguntas são feitas com muita freqüência pelos leitores da Horse
Business.
Elas foram à inspiração para a realização de um "workshop de embocaduras",
na Escola Desempenho de Equitação, onde combinamos aulas prático- teóricas
a demonstrações montadas, utilizando tanto cavalos-modelo quanto animais
de correção.
Quem não esteve lá poderá conferir abaixo uma síntese dos momentos mais
interessantes e estimulantes.
O uso de embocaduras é o assunto mais controverso da história da equitação
e pode ser uma fonte de equívocos atribuir a essa ferramenta atributos que
ela não tem. A filosofia de que a embocadura é a chave do cavalo é reflexo
do antigo pensamento mecanicista onde se "guiava"o animal com a
embocadura. Hoje, a moderna neurofisiologia da equitação nos dará uma
visão bem diferente do que ocorre.
O fato é que nenhuma embocadura jamais resolveu o problema que seu
inventor preconizou, e a sua verdadeira função só pôde ser avaliada depois
das descobertas realizadas na neurociência na segunda metade do século 20.
Origem da Embocadura
Os bridões articulados de ferro já estavam em uso na Mesopotâmia e no
Oriente Médio há mais de 3.200 anos; os freios foram inventados pelos
celtas há cerca de 2.400 anos. O bridão articulado tem uma ação direta
sobre as barras, que são as áreas desprovidas de dentes da mandíbula
inferior, onde ele faz contato, e sua ação quebra-nozes pode fazer contato
também com o céu da boca do cavalo. Para ser corretamente usado, o bridão
exige o uso das duas mãos.
As câimbras (pernas laterais) do freio e a barbela são responsáveis por
seu efeito de alavanca e isso aliado à sua peça central rígida permitiu o
uso de uma só mão do cavaleiro, liberando a outra para o uso de armas,
ainda mantendo um grande controle do cavalo. Isto possibilitou o
surgimento da cavalaria mais pesada, especialmente a partir da Idade
Média. Nesta época, o pensamento mecanicista criou uma enorme variedade de
"ferramentas" para os mais variados objetivos.
Um autor, L. Picard, diretor da Escola da Cavalaria de Saumur, chegou a
"prescrever" mais de cento e cinqüenta modelos diferentes de embocadura
para éguas prenhes, para cavalos turcos, para cavalos que disparam, para
cavalos que tem dificuldade de virar para esquerda, etc.
Precisão e sutileza
Apenas mais recentemente chegou-se a uma compreensão mais correta da
"conexão neurofisiológica" (Rink 1998) que as embocaduras estabelecem
entre as mãos do cavaleiro e a boca do cavalo, órgãos que biologicamente
têm fins semelhantes, pois são utilizados na apreensão de alimentos e que
por isso são bem dotados de coordenação motora fina. Assim, o uso correto
de bridões ou freio vai progressivamente estabelecida uma série de
reflexos condicionados, que vão se refinando, até que seja possível para o
cavaleiro comunicar suas intenções para o cavalo com um mínimo de força
física, porém com um máximo de precisão e sutileza, a ponto do comando ser
invisível para observador. Mais do que isso, o bom equitador procurará
provocar em sua montaria a sensação de que o desejo do movimento partiu do
próprio cavalo.O bom uso da embocadura delimita uma "zona de conforto"
para o cavalo (Rink 2000). Por exemplo, com o uso de bridões o cavaleiro
aumenta a pressão sobre a rédea esquerda quando deseja virar para
esquerda. Um bom equitador precisa cultivar a sensibilidade de interromper
a pressão"assim que o cavalo responde da maneira desejada.
Este reflexo adquirido é incutido no cavalo jovem do modo mais claro
possível, interrompendo a pressão no primeiro instante da mais mínima
tentativa de resposta correta - no caso, por exemplo, apenas virando a
cabeça ligeiramente para o lado esquerdo. Isto dá ao cavalo a noção de
que, quanto mais rápido ele responder ao comando, mais rápido a pressão
cessará, e assim sua zona de conforto vai sendo delimitada. O imediatismo
da reação positiva do cavaleiro fará com que o potro também vá respondendo
cada vez mais rapidamente e mediante ao uso de pressão cada vez mais
suave. À medida que o adestramento do cavalo progride, a cadeia de
reflexos vai ficando bem estabelecida e o estímulo do cavaleiro pode ir
ficando mais suave. Assim, com o cavalo mais avançado, vai se tornando
possível trabalhar com um contato mais estável do bridão, onde a sutil
"liberação de pressão" continua sendo sentida pelo animal, porém é pouco
ou nada perceptível.
Círculo Vicioso
Em contrapartida, se num cavaleiro pouco educado não existe ligação
lógica entre a movimentação das rédeas - as quais o cavaleiro às
vezes nem se dá conta - e as ações do cavalo - por bem ou por mal o
cavalo vai aprendendo a criar mecanismo para resistir à pressão e se
defender do desconforto e da dor. Um exemplo fácil de se observar é
o "alto", quando a pessoa continua "puxando a rédea" depois que o
cavalo já parou, ou pára de puxar alguns segundos depois que o
cavalo se imobiliza ( o correto imediatismo de parar com a pressão
significa o mais próximo possível do imediato - décimos ou
centésimos de segundos nos cavaleiros avançados). Se o cavalo não vê
recompensa em obedecer, ou seja, se o desconforto continua não
importa o que ele faça, ele vai resistir cada vez mais e o cavaleiro
precisará fazer mais força para conseguir a obediência do cavalo.
Este é o cenário em que alguém desinformado exclamará: "você precisa
usar um freio mais forte!" Só que o freio mais forte aumentará ainda
mais o desconforto e a dor e continuará a não trazer o alívio,e o
cavalo vai resistir mais ainda e estará formado o circulo vicioso.
Com a utilização de embocaduras mais "fortes" o animal vai perdendo a
sensibilidade na boca e ficando cada vez mais difícil de conduzir. Um
cavalo educado pressupõe a existência de um cavaleiro com as mãos
educadas.E estas dependem absolutamente de uma posição de equilíbrio na
sela, pois não é possível usar as mãos de maneira refinada se precisamos
delas para nos dar equilíbrio e firmeza na sela; está é a função de
pernas.
A prática, de preferência com a supervisão de um bom professor de
equitação é essencial. A embocadura deve conferir ao cavaleiro uma ligeira
vantagem mecânica, que é necessária em muitas situações,como quando o
cavalo se "entusiasma" com a própria força e velocidade, criando um atraso
na obediência às indicações de mudanças de velocidade e direção, quando o
momento pode estar pedindo precisão e velocidade extrema. No entanto, é
importante entender que o uso de uma embocadura mais forte não deve servir
para causar mais dor, e sim para refinar e tornar mais preciso determinado
comando, ou seja, para diminuir a força e aumentar a sutileza da
equitação, sem que isto seja substituído para um domínio da técnica
correta.
A embocadura deve conferir ao cavaleiro uma ligeira vantagem mecânica, que
é necessária em muitas situações,como quando o cavalo se "entusiasma" com
a própria força e velocidade, criando um atraso na obediência às
indicações de mudanças de velocidade e direção, quando o momento pode
estar pedindo precisão e velocidade extrema. No entanto, é importante
entender que o uso de uma embocadura mais forte não deve servir para
causar mais dor, e sim para refinar e tornar mais preciso determinado
comando, ou seja, para diminuir a força e aumentar a sutileza da
equitação, sem que isto seja substituído para um domínio da técnica
correta.
Não é possível compreender o mecanismo de funcionamento das embocaduras,
nem utiliza-las da maneira desejada, sem entendermos a dinâmica de todo o
corpo do cavalo. Bridão ou freio são apenas o ponto de contato mais
evidente entre a indicação do cavaleiro e a resposta do cavalo, e onde os
problemas primeiro se manifestam, mas são também parte de um conjunto bem
mais complexo, onde a deficiência em uma única área irá prejudicar o
desempenho do todo.
Anatomia do Cavalo
Anatomicamente falando, a coluna vertebral do cavalo é uma linha
horizontal (a parte cervical mais ou menos inclinada, dependendo da
situação), que vai do alto da nuca à ponta da garupa. Ela está revestida
de músculos e ligamentos e constitui como que o eixo propulsor do cavalo.
Continuando as comparações mecanicistas, o "motor"do cavalo é o traseiro -
a energia do seu movimento é gerada no posterior e transmitida aos
anteriores e antemão através da coluna vertebral. Na frente está a "coluna
de direção", onde o impulso recebido será dosado e distribuído. Esta
comparação evidencia algumas coisas: primeiro que o cavalo precisa estar
bem trabalhado e flexível, com todas as partes do seu corpo funcionando em
uníssono, para permitir a condução de energia do movimento do posterior
para o anterior. Está é a importância da busca por um animal que trabalhe
engajado e colocado. Segundo, o equitador precisa ter capacidade de gerar,
distribuir e direcionar a impulsão, sem a qual a equitação não existe. A
grosso modo, é possível dizer que o cavaleiro gere a impulsão com as
pernas e, através das rédeas, estabeleça o limite da ação com as mãos. A
mão educada, respaldada pelas atitudes mais ou menos enérgicas de pernas,
determina velocidade e direção do movimento. No avançar a galope, por
exemplo, o nível de energia gerado tem intensidade e direção diferentes do
que na volta a passo para a direita.
Sensor de diagnóstico
Quanto mais pensarmos na embocadura com um sensor de diagnóstico do grau
de flexionamento da coluna vertebral, e, portanto de todo cavalo mais fica
claro que ela serve tanto ou mais para que o cavaleiro "ouça" o cavalo, e
não apenas para que ele "grite ordens", como poderíamos erroneamente
pensar. Qualquer problema de transmissão, de fluxo de movimentos, de
resistência ao trabalho proposto, ficará perceptível de imediato para as
mãos do cavaleiro educado, que saberá iniciar manobras corretivas - de
novo, partindo de pernas e sendo direcionadas pelas mãos. Jamais a ordem
inversa. Se a embocadura for à chave do cavalo ela apenas abre a porta de
entrada ao universo complexo e fascinante da equitação, cuja exploração
vai muito além desta soleira. A melhor ferramenta depende da habilidade do
artista para funcionar corretamente. Não imaginamos que um cinzel saiba,
sozinho, esculpir o mármore, nem que um bisturi opere corretamente quando
não está nas mãos habilitadas de um cirurgião. No entanto, muitas pessoas
gostariam de encontrar uma embocadura "mágica", que resolve todos os
problemas de comunicação e obediência entre cavalo e cavaleiro,
independentemente do nível de equitação de ambos. Não há substitutos para
a dedicação e a disciplina, reconhecendo que o aprendizado da equitação,
ciência e arte, começa um dia, porém não termina jamais.
Fonte: Revista Horse Ed.69 de Março-2001
Texto de Claudia Leschonski e Bjarke Rink
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