MEDO DE CAVALO
A simples aproximação com o animal pode ser mais eficiente do que um tratamento psicoterápico para superar o trauma de montar.
“O cavalo exerce um fascínio quase genético em nossa sociedade e, para muitos, esse fascínio é maior que o temor.”
Poucos animais carregam tanta simbologia em sua história como o cavalo. Presente em documentos, relatos e ditos populares, sua trajetória se confunde com o desenvolvimento da própria civilização humana. O poder, a força, a coragem e o espírito selvagem dos eqüinos são freqüentemente evocados na mitologia clássica, nas artes em geral e, como outras figuras legendárias, fascina, inquieta e distancia.
Seu porte altivo desperta um misto de curiosidade e apreensão, especialmente nos que travam um primeiro contato com o animal. Ainda nos dias atuais, é comum as escolas de hipismo e haras receberem pessoas interessadas em equitação, muitas vezes dispostas a aprender a cavalgar, mas que demonstram temor até mesmo em se aproximar do cavalo.
Normalmente, a simples intensificação da convivência é suficiente para superar as barreiras iniciais, que podem ser causadas por um trauma, como uma queda ou a lembrança de alguém próximo que tenha se machucado ao montar, ou pelo despreparo em lidar com a novidade.
“O ser humano tem medo do desconhecido e o cavalo é diferente no parecer dessas pessoas”, analisa a instrutora de equitação e psicóloga Gabriele Brigitte, do Haras Rancho GG. Ela defende a aproximação com o animal para que ele deixe de representar algo que possa ser considerado temível.
O despertar da curiosidade seria, então, o ponto fundamental para a superação do medo que algumas pessoas sentem pelos eqüinos. Para Brigitte, a partir dessa orientação, é possível desenvolver o interesse: “o cavalo exerce um fascínio quase genético em nossa sociedade e, para muitos, esse fascínio é maior que o temor”.
As clínicas de vivência aparecem como soluções viáveis para a superação desses limites. Nelas, as pessoas têm contato com o cotidiano da vida eqüestre, aprendem a conhecer os comportamentos e ações das diferentes raças, criando vínculos, superando naturalmente traumas e medos.
A instrutora Ana Paula Perracini, que dá aulas de equitação na Vila Hípica Moinho Velho, concorda que a origem do medo está, a princípio, na impossibilidade de prever e controlar ações específicas de cada categoria. Ela ressalta a importância de um acompanhamento profissional para a iniciação na equitação, tomando conhecimento de seus princípios básicos. “Montar não é algo que se faça instintivamente porque senão faz errado”, afirma.
Embora não conte com assistência psicológica, Perracini defende um acompanhamento individualizado para o aluno que apresenta dificuldades em se adaptar ao esporte. Ela garante que a superação do medo somente será possível expondo e respeitando os limites de cada um, através de um treinamento diferenciado e de um contato maior com o cavalo.
Divergindo de alguns profissionais mais ortodoxos, que desprezam a força física para dominar o cavalo, a instrutora recomenda exercícios específicos para desenvolver determinadas regiões do corpo, especialmente a musculatura interna da coxa, e o equilíbrio para montaria.
Outros detalhes como o modo de segurar o animal, o posicionamento da sela e do estribo também são importantes para garantir a segurança do praticante de montaria. Segundo Perracini, aos poucos a “pessoa vai adquirindo confiança para começar a trotar e galopar em baixa velocidade, podendo evoluir gradativamente”. Há cerca de um ano, a química Ivone Sato decidiu se matricular em curso de equitação para superar suas dificuldades. “Sempre viajei muito e, nessas ocasiões, os percursos tinham que ser fetios a pé ou a cavalgada. Eu me lembro que era um escândalo cada vez que eu tentava montar. Sofria muito, atrasava, tinha que continuar caminhando”, recorda.
Através das aulas dirigidas, Sato conseguiu ter confiança e se desenvolver no esporte. Paralelamente ao trabalho de convivência e treinamento técnico, a química vem realizando exercícios musculares para adquirir maior estabilidade e domínio. “É um desafio constante. A pessoa nota a evolução a cada dia e vai sentindo a motivação para superar o medo.” E enfatiza: “hoje cavalgo por puro prazer.”
Existe um consenso quanto à forma de superação do chamado medo consciente. Profissionais da área concordam que a aproximação com o objeto que representa o perigo, através da construção de um ambiente favorável, permite a rápida transposição do problema.
“O medo é a eleição de um objeto fóbil que sintetiza o perigo que pode advir do mundo externo.”
A presença constante de um instrutor, a conscientização das técnicas que garantirão a integridade do corpo e, acima de tudo, a abertura para que a pessoa possa falar sobre essas dificuldades, contanto sua visão e sua história, são fundamentais para a delimitação do grau de temor e sua conseqüente qualificação. O medo é pautado na racionalidade. É ele que evita a pulsão de ameaça e garante a preservação da vida. Seu sentido de proteção é plenamente justificável: o cavalo é um animal grandioso e requer algumas recomendações antes que se tente chegar próximo a ele. Alguns de seus instintos e atitudes podem oferecer perigos reais ao homem, devendo de fato ser evitados.
Ainda que, em geral, esse sentimento possa ser explicado por uma realidade sensível, seu limite tange a fobia e o pânico, extrapolando o nível consciente e impedindo que o indivíduo consiga se relacionar com o foco do problema.
Coordenadora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), a profa. Dra. Walkíria Helena Grant classifica o medo como “a eleição de um objeto fóbil que sintetiza o perigo que pode advir do mundo externo”. Para ela, ao colocar esse receio em um objeto ele se torna palpável, mas não impede a pessoa de viver normalmente e até enfrentá-lo em situações extremas.
Esse é o caso de quem teme altura, ser assaltado ou andar de avião. As restrições impostas por essas conjunturas não impedem que, mesmo amedrontada, a pessoa suba em um alto edifício, ande pelos grandes centros urbanos ou faça uma viagem não programada, por exemplo, para resolver negócios urgentes, ainda que prefira outras alternativas.
Ao atingir o nível inconsciente, no entanto, o indivíduo torna-se incapaz de lidar com esse sentimento, que passa a caracterizar a fobia. Trata-se, na verdade, do deslocamento da agressividade ou de uma determinada emoção que não pode ser expressa para outro objeto.
De acordo com a coordenadora, a utilização de um discurso consciente para tentar fazer superar o medo é paradoxal. A fobia permite a utilização de uma linguagem não racional, que impossibilita contra-argumentação. “Não é possível explicá-la racionalmente, as coisas não convergem, as linguagens não fazem sentido,” avalia.
Grant observa ainda que o sintoma fóbico remete sempre a um ganho e cita um caso clássico da psicanálise para explicitá-lo: um menino de quatro anos que se recusava a sair de casa alegando medo (irracional) de ser mordido por um cavalo. Pelo diagnóstico, esse comportamento evidenciaria o desejo do garoto em ficar com a mãe, não precisando ir a escola e, assim, se afastar dela. Essa era a sua recompensa. Como temia que o pai pudesse sentir ciúmes e repreendê-lo, mas não admitia a hipótese de ter raiva dele, sua agressividade era toda deslocada a um objeto, no caso o cavalo. Um fato curioso na interpretação desse fato é a escolha do objeto fóbil. O animal tinha manchas pretas ao redor da boca que remetiam ao bigode presente na figura paterna.
A técnica terapêutica utilizada para tratar a criança utilizada rotineiramente no acompanhamento de outros distúrbios de medo consiste em permitir que ela fale sobre seus sentimentos, além de criar mecanismos, como jogos, que possibilitaram o extravasamento da emoção reprimida sem interferência na constituição familiar.
Na infância, quando os referenciais e a consciência da potência paterna são inconsistentes, esse tipo de problema é mais comum, porém não é patológico. quando se estende pela adolescência e pela fase adulta, sua complexidade aumenta, já que os relacionamentos não são mais circunscritos ao ambiente familiar, envolvendo um maior grau de comprometimento e perdas sociais.
Já o trauma pode aparecer como a exacerbação tanto do medo quanto da fobia, marcantemente doloroso e insuportável. Cair de um cavalo no momento da cavalgada pode gerar uma situação traumática. Da mesma forma, o desejo de se afastar de uma pessoa pode fazer com que o indivíduo projete no cavalo esse sentimento, intensificando uma fobia. Em ambos os casos, a solução é a aproximação e a revelação das emoções implícitas.
Ouvir o que a pessoa tem a dizer sobre seus medos e limitações pode ser a maneira mais eficaz de classificar as variantes desse distúrbio e a necessidade de uma intervenção psicológica. Assim como em outras tantas situações, o bom-senso sempre é melhor que uma tentativa equivocada de diagnóstico.
https://www.bandeirantesroping.hpg.com.br/medo.htm
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